05/02/08

Como deve ser triste não poder ler um livro...

No fim-de-semana vi um excerto da reportagem que iria passar mais tarde na Sic sobre o analfabetismo em Portugal, mas depois acabei por nãover o programa em si. Mas o blog http://daliteratura.blogspot.com/ fez-me o favor de escrever um excelente texto sobre esta realidade, quase inacreditável num país que acolheu eventos de grande envergadura, como a Expo 98, o Euro 2004, a Presidência da UE em 2008...
Quem diria que hoje nesse mesmo país, em pleno século XXI, a situação ainda era esta:

“Os 9% da média nacional actual são ultrapassados no Alentejo, com 16%, e no concelho de Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, com 32%. No último quartel do século XIX eram 85% em todo o país (contra 3% nos países nórdicos), mas que continuem a ser 9% no século XXI é de deixar os cabelos em pé, sobretudo se pensarmos — o grande mérito da reportagem foi ter revelado essa evidência — que não se trata apenas de analfabetismo da terceira idade rural, como por comodidade tendemos a supor, mas de mulheres e homens nascidos depois do 25 de Abril, e até de adolescentes urbanos. Quando nos lembramos do folclore das acções de alfabetização do PREC, com que tanta gente enche a boca, vemos a vacuidade da propaganda. As mulheres a que a reportagem deu voz não estão diminuídas pela interdição da literatura. Isso é o menos. Estão diminuídas porque tudo à sua volta é um buraco negro, da vulgar correspondência às legendas na televisão. Uma delas, salvo erro com 29 anos, não sabendo ler, não pode orientar-se pelas placas dos caminhos: «Tenho de perguntar às pessoas». Outra, com 30 anos, queria ser cozinheira, mas o curso respectivo, ministrado na junta de freguesia, foi-lhe interdito por não saber ler nem escrever. Virou-se então para o álcool, vício de que o companheiro a conseguiu resgatar. Este tipo de situações, em pessoas de 80 anos, são tristes. Em gente de 30 são simplesmente demolidoras...”

Dá-nos que pensar, não? Será que estas pessoas sabem o que perdem? Será que alguma vez vão poder ler um livro, um jornal, um anúncio? Nem nunca escreveram ou leram uma carta de amor...
A mim custa-me a imaginar tal coisa, porque eu leio tudo o que me aparece, até as caixas dos cereias...
A minha avó não sabe ler porque começou a trabalhar desde pequena, mas tem muita pena... o livro de telefones dela não tem nomes, tem desenhos. Desenhos que ela própria faz e através dos quais identifica os números de telefone. Por exemplo, o telefone da sapataria lá da aldeia está representado com um sapato, o meu número está representado por uma boneca, assim como o da minha irmã. O telefone do veterinário tem uma seringa desenhada...
As receitas que ela pede à minha mãe, escreve-as numa linguagem própria. Escreve o número de chávenas e desenha uma chávena à frente, depois desenha o pote do açúcar ou o saco da farinha e por aí adiante... Admiro-a muito por ter conseguido vencer as dificuldades que a vida lhe apresentou e apresenta todos os dias...
Adoro-te avózinha

5 comentários:

Carina M disse...

Se dá. Eu vi a reportagem na integra. Mulheres novas que se deixaram vencer pelas vicissitudes da vida, tentando agora aprender.
Mas tb gostei de ver alguns idosos com mais de 70 anos a aprender. Espirito jovem, dentro de corpos gastos pelo tempo. Um dos senhores tinha 102 anos, uma lição de vida.
Bjs

Manuel Damas disse...

Tem prémio no meu blog.
Bj

Paula disse...

Realmente, é pena uma pessoa não saber ler.
Acho que perde tantas oportunidades...
Para mim, que adoro ler, cada livro é um mundo a ser descoberto e acho que quem perde isso, perde uma das melhores coisas da vida!
E realmente, a tua avó vê-se que é uma lutadora, que não deixou o analfabetismo vencê-la!
Bjs!

susy claro disse...

Obrigado pelos vossos comentários! Hoje acvabei de ler o livro novo do José Rodrigues dos Santos, de que gostei bastante! Venha o próximo! ;)

karoxinha disse...

Olá

infelizmente é uma realidade presente neste nosso pais... que embora escondida existe... eu nao me imagino sem conseguir ler... logo eu que sou uma devoradora de letras... adoro ler e escrever...

minha avó tal como a tua tambem nao sabe ler nem escrever :( ... mas mesmo assim toda a vida lutou pelos seus direitos e mesmo sem saber ler ninguem lhe passa a perna...

a vida as vezes é mto cruel...

bjinhos karinhosos de bom fds
karoxinha

ps... obrigada pela visita lá em "casa", volta sempre serás mto bem vinda